Manhã de sábado, 03.12.16, os aviões Hércules da Força Aérea Brasileira tocam o solo da
pista do Aeroporto Serafim Enoss Bertaso, em Chapecó – SC., trazendo os corpos
dos Diretores e Jogadores da Chapecoense. Nesse momento a tristeza é
materializada, é chegada a hora dos familiares receberem os restos mortais dos
seus queridos, hora do luto, de chorar as perdas dos seus filhos, pais, irmãos,
namorados, amigos, etc. Mera coincidência, mas, até os aviões e as fardas dos militares são verdes, combinando com as cores da Chapecoense.
Esse é o pior momento. É a hora que a tristeza quase
pode ser tocada, sentida e transformada em lágrimas... é o momento que até o
silêncio incomoda. E parece que a natureza também se entristeceu em Chapecó,
pois, a chuva aumentou, o céu está cinza, nada se vê no horizonte, como não se
pode imaginar o que se passa no coração de cada um presente na Arena Condá.
Aos cinqüenta e quatro anos, com certa experiência de vida e já tendo passado por inúmeras decepções, derrotas e descompassos, uns reservados pela vida outros inexplicavelmente buscados com as próprias mãos, me vejo incapaz de exprimir essa tristeza que hoje me invade. Parece que são pessoas da família.
Chapecó é nesse momento uma cidade atônita. Sua população juntamente com todo o País nos tornamos uma só família, um só corpo, um só choro e lágrimas. O povo está sem
voz, sem ação, só há dor e perplexidade. Desolação é o que se vê no rosto de cada um...
Aquele voo LMI2933 decolou com festa e brincadeiras, com
demonstrações de esperança de um título Sul-Americano de Futebol, não chegou ao seu destino... o amor pelo dinheiro, a ganância, a inconsequência, a falta de
ética, e sobretudo a mentira derrubaram aquela aeronave, e naquele
morro bem próximo a pista do Aeroporto de Medellín, ficaram sepultados os
sonhos de jovens atletas no auge da vida, famílias inteiras que se dedicaram ao esporte
foram dilaceradas, jornalistas calaram suas vozes, as câmeras dos cinegrafistas
anônimos foram desligadas, enfim, homens
que deram suas vidas pelo esporte se foram.
Não creio nisso, mas, curioso que Lâmia, na mitologia
grega, era uma rainha que se tornou demônio devorador das crianças, e chama-se
também de Lâmias, alguns tipos de monstros, bruxas ou espíritos femininos que
atacavam jovens viajantes e lhes sugaram o sangue. Da sua cintura para baixo,
tem a forma de uma cauda de serpente.
Sem medo de errar, a falta de profissionalismo e a irresponsabilidade do dono da empresa Lamia, o também Piloto Miguel Quiroga, um aeronauta aético, desrespeitoso para com a vida, com sua tresloucada ganância somada a irresponsável busca pelo ‘ter’ sobrepuseram ao respeito ao Ser Humano. Isso se chama
traição, pois, ao afivelar os cintos para a decolagem de um avião, os passageiros estão à mercê do
Comandante, e se este não honrar seu compromisso ético, o fim é a morte trágica
como aconteceu com a Chapecoense.
O destino era Medellín, na Colômbia, também chamada
de Medeline, capital e a maior cidade da província de Antioquia, localizada no
Noroeste do país, com 2,2 milhões de habitantes, a qual, num passado muito
próximo era tratada como uma das mais violentas do mundo, refém do tráfico de
drogas, tendo como seu algoz o já falecido traficante Pablo Escobar. Ele se foi
e levou com ele o medo, deixou um povo solidário, lutador, sofrido e
determinado a dar a volta por cima.
Os Colombianos demonstraram nobreza e deram uma lição
de fraternidade e solidariedade no tratamento às vítimas e aos sobreviventes
daquele fatídico voo. Nobreza no comportamento, trato respeitoso aos
brasileiros. A torcida do Nacional de Medellín esqueceu a
rivalidade, tornou-se Chapecoense naquele momento. A Colômbia nos deu uma lição
de respeito aos mortos e de amor aos vivos, tendo cuidado dos nossos mortos com
respeito e devoção, e ainda cuida dos sobreviventes com altíssimo profissionalismo. Prova disso, o nível do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses de Medellín, da preparação dos corpos e urnas, além da qualidade dos Hospitais dá inveja à nós brasileiros.
Esse calor humano, essa declaração universal de amor
incondicional sem levar em conta a bandeira do time, a cor e a raça, se
alastraram mundo afora, levando conforto aos corações de todas as torcidas, as
quais se tornaram torcidas de um só clube, os “Chape´s”.
Demonstração maior de nobreza, humildade e
humanidade, foi o ato da Diretoria do Club Atlético Nacional de Medellín ter indicado
e ofertado o título da Taça Libertadores à Chape. Somando-se a isso, os
milhares de novos associados fizeram suas inscrições, o oferecimento de ajuda da CBF e da maioria dos
clubes do País, dando reais chances para a reconstrução da Chapecoense.
Tudo isso conforta, mas, certamente não sobrepõe a dor
pelas perdas, a tristeza pela retirada repentina de jovens atletas do seio
daquelas famílias, o desfalque de possíveis campeões que poderiam representar o
Brasil jogando pela Seleção Brasileira, além da possibilidade de representar o
Brasil em times pelo mundo. O que restou foram famílias dilaceradas, pais com
corações torcidos, filhos sem pais, crianças que sequer nasceram ainda e quando
vierem ao mundo não terão seus pais, gerações interrompidas, muita perplexidade
e uma só certeza: “desde sempre, o dinheiro é a raiz de todos os males.”
Resta curvar às Autoridades e ao povo Colombiano, às Autoridades de Chapecó e do Estado de Santa Catarina, às autoridades do nosso País, ao Exército, Policia Militar, Policia Rodoviária Federal, a Força Aérea Brasileira, dentre outros que nesse trágico acidente deram lições de solidariedade e de amor ao próximo,
virtudes raras hoje em dia.




