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Sexta-feira, 23 de novembro de 2001, com certeza o dia mais comprido, tenebroso
e triste da minha vida. Perdi meu brother do
coração. Cara honesto, brincalhão, bonitão e feliz, um homem simples, o qual,
com maestria e sabedoria soube conduzir a vida, o
melhor caminhoneiro do mundo teve um mal súbito pela manhã,
submeteu-se a uma cirurgia altamente invasiva, e dormiu... não acordou
mais. Deixou-me a ver navios, sozinho. Se foi cedo demais. E logo ele que
sempre brincava que quando a morte chegasse ele daria um drible nela. Coisas
que só Deus pode explicar!
Ainda
tivemos a oportunidade de estar juntos até as 17hrs do dia 24, um sábado
sombrio. A noite inteira, naquele silêncio ensurdecedor, quase eterno,
‘falamos’ muito. Trocamos altas idéias... até sorri lembrando das suas piadas e
histórias. Tudo foi selado com aquele último beijo, levaram-no... tiraram-lhe
de mim de uma vez por todas, mas, com certeza, o sopro de vida já havia sido
recebido pelo Criador, e meu velho continuou seu sono noutro endereço, quadra
M, lote 811, Cemitério Jardim das Palmeiras, em Goiânia - GO.
Depois
dessa fatalidade, todas as noites, parece que ainda sonhando, por muitos meses
esperei o telefone tocar. Esperei ouvir a mesma pergunta de sempre: “e
aí tchê, como foi seu dia?” Eu não queria acreditar. Parece que
minha bússola enlouqueceu. Perdi o centro, fiquei totalmente desnorteado.
Restaram minhas cinco mulheres e eu.
Dizem
que a perda de uma mãe está na lista dos lutos mais doloridos e longos da vida
de uma pessoa, mas, já se passaram mais de treze anos, e parece que meu pai me
deixou hoje, porque nossa relação sempre foi muito forte, sentimental,
verdadeira e íntima. Meu amigo. A dor chega a cortar... até porque, amigo é
coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito...
Pouco
tempo depois, minha mãe, já debilitada emocionalmente, vitimada por um grave
acidente de trânsito, manifestou desequilíbrio mental, chegando ao veredicto de
doença mental progressiva que carregou por toda a vida
sem ninguém saber, e o Alzheimer... Começou seu longo
calvário. Passados anos de ausência de vida plena, hoje vegeta num leito.
E o pior, nada pode ser feito pelos homens. Só a espera da vontade do Criador.
Só Ele sabe o seu destino.
Minha
irmã e eu estamos preparados? Não. Penso que ninguém tem capacidade e nem força
para administrar essa triste espera. Sabe-se que a perda é certa. Não se sabe
quando. O que se tem certeza é dos inúmeros pedidos de queridos, rogando para
que Deus não permita que ela sofra mais ainda.
Nossa
cultura remete a figura da mãe à segurança, refúgio, aconchego, orientação e
cuidado, e parece que quando mãe adoece e perece em males irreversíveis, tudo
isso perece com ela. Mesmo adultos, com nossas vidas já resolvidas –
pelo menos é o que deveria - apesar de desencontros de
relacionamentos no decorrer da vida, os quais carreguei silente por longos
trinta e quatro anos –
que só ela, eu e pouquíssimos queridos temos conhecimento –, nossas
mentes resgatam nesta hora de iminente perda, que tudo está se esvanecendo.
Nossa última referência está indo... E a sensação de vazio que fica, dependendo
de cada relação, do relacionamento, da história, será o tamanho do impacto que
certamente será vivido com essa iminente perda.
As
críticas são enormes, sempre foram, porque é público que sempre tive melhor
relação com meu pai. Fomos amigos. Mas, geralmente, quem me critica, o faz sem
conhecer o cerne da relação mãe x filho. Nem tentem. Nunca saberão a realidade.
Não merecem saber. O certo é que quem me critica, são pessoas mal resolvidas e
que vêem nos outros os seus próprios problemas. São os carniceiros de plantão,
desprovidos de inteligência e de capacidade de imaginar a importância e a valia
que minha mãe representa em meu peito. Não sabem calcular a proporcionalidade
da falta que ela fará no dia que faltar... aliás, a falta que sempre fez minha
vida afora. Só eu sei o tamanho desse rombo. Só eu sei o peso e o significado
daquele tímido e singelo beijo, na tarde de 24.11.01. O primeiro que ganhei,
talvez, o único que eu me lembre. Mas, valeu!!!
Dores,
arrependimentos, desculpas mútuas, revoltas, tudo já passou. Não se tem falta
de perdão, mas, cicatrizes profundas ficaram. Agora, é o momento da busca do
perdão pessoal por não ter a capacidade de aceitar o processo natural da perda
iminente. Mas, o alívio é que Deus está no controle de todas as
coisas. O tempo não é meu, nem da minha irmã, é só Dele.
A
verdade mais cruel virá com a indiscutível perda. Tento me preparar
psicologicamente e espiritualmente, mas, meu físico reclama muito forte. Guardo
somente as boas imagens, preservo os bons momentos, as verdades, qualidades e
os defeitos, afinal, não é porque ela está demente que virou santa. Isso não.
Mas, com todos os possíveis defeitos, ela tem muitas qualidades, ela que me
gerou, é minha mãe, e fim de papo.
O
indispensável e que eu exijo, é que respeitem os nossos sentimentos.
Especialmente o meu, que não conhecem, não tem o mínimo conhecimento.
Terceiros, parentes próximos ou não, não têm o direito e muito menos a
capacidade de sopesar sentimentos que carregam os que serão órfãos. Desconhecem
qual o vínculo afetivo, se intenso ou não, quais as dores vividas, quantos
desencontros e desconfortos e quais suas origens, quais os sonhos não vividos
ou interrompidos, quantas feridas ficaram abertas por anos, quais e quantas sequelas,
etc, etc... Não sabem nada da história das nossas vidas. Esses críticos
são os falsos moralistas, desprezíveis, desmerecedores de qualquer atenção e
consideração. Verdadeiros fariseus. Falta-lhes nobreza!
O
certo é que "enquanto
a carruagem passa, os cães ladram."
Quando?
Não sabemos. Mas, ela vai partir sem poder dizer adeus, sem força para um
abraço, sem nada mais. Simplesmente, vai... Ela merece descansar desse fardo
pesado que tem carregado. Sempre teve saúde frágil. Vez por outra, faltou-lhe
até o ar que tentava respirar. Sempre sofreu, mas, teve o cuidado dos
Céus durante a vida. Seria covardia querer seu aconchego, pelo menos, uma
segunda vez.
As
únicas certezas que tenho é que em breve serei realmente um órfão, e também,
que Cristo disse: “Eu
sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto,
viverá”. João
11:25
Que
Deus vele por ela e não a deixe sofrer.